segunda-feira, 23 de junho de 2014

Como crianças na praça

Tocamos flauta
E não dançastes
Lamentamos
E não chorastes
A quem escrevi meus poemas
Os que não foram lidos
Fiz um poema de amor
Do peito escrito
Com sangue escrito
E quem não leu?
Meu poema de amor sem palavras
Que escrevi com meu beijo
Meu olhar
E meu sorriso
Por que não lestes?
Fiz um poema de morte
Sempre deveras mal entendido
Pois que fala da vida
E do medo da morte
Algo intrínseco na vida
E o decorei muito com rimas
Decoramos a morte com flores
Fiz poemas leves e alegres
Pipas e dentes-de-leão
E sorriso bobo de mulher apaixonada
Bebê que ri enquanto dorme
Peixinho coloridos será que sorristes?
O que fiz dos meus poemas?
O que fazer com meus poemas?
Sempre parecidos comigo
Tipo fera selvagem que caça
Tipo presa que aguarda o bote
A quem escrevo?
A quem falo da minha vida?
Dos meus sonhos
Dos poemas que amo
Porque o sentimento mais verdadeiro do mundo
É amar a si mesmo
Sentimento traído por todos os suicidas
Pois que agora farei rimas
De agora em diante
Farei um poema de instante
De meu momento inconstante
De um sentimento rompante
Que te darei como abraço
E te prenderá como laço
E te ferirá como aço
Do que sinto e do que disfarço
Vou escrever num só verso
O todo do meu universo
Que em mim me disperso
Que o contrário de mim é inverso
A quem faço este poema
Feito por alma pequena?
Constristada e serena
A quem desenho esta cena?
A todo que ler digo
Que estou nos poemas que fiz
Que fiz com meu coração
Que fiz por amor
Que fiz por dor
Que fiz pra te ferir
Que fiz pra te beijar
Não sei as notas da música
Que me fazem chorar
Também não faço poemas
Com palavras
Faço com carinho e inocência
Porque fui criança
Às vezes com raiva e revolta
Pra poder me quebrar
Me cortar com meus cacos
E após dispersar me refaço
Juntando pedaço a pedaço
Faço poemas dos nãos que recebi
E com os restos do jantar
Do beijo que me negaste
Com minha oração de louvor
A ti faço poemas
Do bebê abortado
De meu campari com laranja
Do meu voto perdido
E do que vi no fim do arco-íris
Não faço poemas para gostares
Einstein disso que isso é relativo
Mas para que sintas
Por que é assim que celebramos
Por que é assim que sabemos
Que estamos vivos