sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Quando não sou

Prólogo do poema 
                                e da tragédia humana: ser o que é

Pensando em todo meu egoísmo e egocentricidade, estive pensando o quanto eu sou quando não sou. E o quanto mais sou quando nego-me. Negando o que querem todas as fibras do meu ser. Ou assumo este eu veementemente, quando digo não. Parece difícil explicar, mas é fácil entender. Tipo Rolling Stones tocando
I wanna be your man Não se confundem com os Beatles. A essência de cada um é inconfundível Mesmo assim isso nos gera conflito interior Conflito natural do ser, como bem colocou o apóstolo Paulo:
Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço
Romanos 7:15




Poema

Perdoem-me porcos
Porque sou lírio
E quero estar entre vocês
E se fosse um porco
Ou ateu
Quereria ser nuvem
Antes mesmo de querer ser vento
De tudo ainda sou um lírio
E choro
Porque vivo só
E morto
Estarei num lindo buquê
Mas tudo bem
Peixinhos coloridos também não podem voar
Cada um faz o que pode
Sou lírio
E isso não é lá grande coisa
Os porcos parecem tão felizes
Rolando na lama
Fico com uma vontadezinha
E quando faço algo bom de verdade
Algo altruísta
Gesto desprendido de mim
Parece até que não foi eu
Que eu não fui eu
Ainda bem que não sou pérolas
A embelezar pessoas esdrúxulas
Ou poetas que usam palavras esquisitas
Dom divino o "livre arbítrio"
E hoje
(Somente hoje)
Escolherei o que serei
Primeiro serei sol poente
Depois sol nascente
(Nessa ordem, porque nessa ordem há esperança)
Serei uma cachoeira não muito alta
De águas cristalinas
Serei som de vento soprando
Serei alguém paciente no trânsito
Serei paciente também 
No final de uma fila extensa
Gostarei de ser também
O riso dos bebês enquanto sonham
Presa em disparada que escapou
Do bote surdo da serpente
Dor que não se sente
Um pedaço de poema da Cecília Meireles
Beija-Flor
E poderei voar rapidamente
E comer coisas doces
Sem o temor dos diabéticos
E mais
Serei mulher que se entregou
E não foi abandonada
Pai que ama como mãe
Abacaxi com gosto de pera
Truque de mágica inexplicável
Filho que não nega o pai
Onda que abraça a rocha
Rocha que beija a onda
Cometa que não sai do lugar
Cambalhota de palhaço
Os primeiros segundos depois do amor
Não, lírio não
Hoje serei
Dente-de-leão
Serei bonito e feroz
E quando morrer
Quero o vento a me levar
Para encantar alguém

Um comentário:

  1. Simplesmente arrepiante, delicado e profundo! Tuas palavras vivas me alcançaram e me encantam desde já, tão linda poesia, poeta!

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