quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Poeta

Já fiz quase tudo que as palavras permitem
Combinações semânticas e rimas paralelas
Já disse e escrevi coisas lindas e belas
E coisas que nem a uma besta se dizem

Uma vontade inexplicável de se expressar
Sem objetivo específico real e aparente
Mil vezes nos versos a me confessar
A amar! Odiar! E tudo mais que o peito sente

Acalmei quem me odeia com palavras amenas
Já feri que me ama com palavras pequenas
Superestimei e subestimei o poder do dito e escrito

Mas tudo que eu disse fluiu de dentro do peito
E quando a delirar no meu último leito
Perdoem o que diz este poeta maldito

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Embalos de sábado à noite

Ontem sonhei com um anjo
Estou muito ansioso estes dias
Excesso de futuro
E ele respondeu: basta a cada dia o seu mal
E me permitiu por um instante 
Ver o coração dos homens
E não pude perdoá-los também
Titanic que afundou em meu peito
Quem não pode perdoar
Não pode amar
E quem, não ama a si mesmo?
Ame a todos como se não houvesse amanhã
Então uso uma velha combinação
Bíblia, chá, ansiolíticos e peixinhos de aquário
E deixo o coração um pouco nublado
E pauso um pouco as inquietações sobre o amor
E sobre o amar
Como criança que olha pro mar
Pra algo belo e fantástico
Com medo e admiração
E um desejo inquietante e profundo




sábado, 18 de janeiro de 2014

A morte após do pós moderno

Há muito tempo atrás 
A morte era um grande fenômeno
Um grande acontecimento
Algo acontecido com um conhecido distante

Há algum tempo atrás
A morte era algo espantoso não pequeno
Foi de acidente, crime ou ferimento?
Era sempre um fato inquietante

Num video-game ou num filme
A morte é mais que natural
Já não nos causa estranhamento
E acontece a todo instante

E na mídia há tanto crime
Que saiu da página policial
E foi pra do entretenimento
Ficou a morte desimportante?

Ontem quase me deu um sobressalto
Algo normal num engarrafamento 
Ó trânsito infame num dia quente
Me estica os nervos sobe a pressão

Havia algo morto no meio do asfalto
E enraivado com o trânsito lento
E não senti nada, indiferente
Se era um homem ou se era um cão


sábado, 11 de janeiro de 2014

Canção pra você viver mais

Mote
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais



Voltas

Achei um 3x4 no meio dos poemas
Foto bem parecida com você
Foto minúscula, lembranças não pequenas
Então me lembrei de um sem porquê
Algo que se sente e não se diz
Que se escondeu no coração
E o que se diz não volta atrás
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

Lembro que tinhas uma mania romântica
Entre as páginas colocava uma rosa
De receitas, poemas ou física quântica
Qualquer leitura em verso e prosa
Flor de lótus flor de lis
Tenho lembrança que é oração
Quando passeio nos roseirais
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

Ainda lembro seu prato preferido
Tirado de um velho livro de receitas
Amava o jeito que comias
E ainda mais o jeito que te deitas
Licor com cravo, canela e anis
Pão, peru e requeijão
Amor gostinho de quero mais
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

Nada lembra o teu toque
Teus dedos entre meus cabelos
Manuseio um velho vinil de roque
Que me arrepia todos os pelos
Deixaste em mim funda raiz
Em mim cravada tal arpão
Teu tronco amor, aonde jaz?
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais

Não sei cantar não tenho voz
Não sei fazer nem serenata
Sou dissonante e atroz
E de música não sei nada
Mas te coloco num poema que fiz
Caça com gato quem não tem cão
Entre meus versos viverás
Faz um tempo que eu quis
Fazer uma canção
Pra você viver mais


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Quando não sou

Prólogo do poema 
                                e da tragédia humana: ser o que é

Pensando em todo meu egoísmo e egocentricidade, estive pensando o quanto eu sou quando não sou. E o quanto mais sou quando nego-me. Negando o que querem todas as fibras do meu ser. Ou assumo este eu veementemente, quando digo não. Parece difícil explicar, mas é fácil entender. Tipo Rolling Stones tocando
I wanna be your man Não se confundem com os Beatles. A essência de cada um é inconfundível Mesmo assim isso nos gera conflito interior Conflito natural do ser, como bem colocou o apóstolo Paulo:
Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço
Romanos 7:15




Poema

Perdoem-me porcos
Porque sou lírio
E quero estar entre vocês
E se fosse um porco
Ou ateu
Quereria ser nuvem
Antes mesmo de querer ser vento
De tudo ainda sou um lírio
E choro
Porque vivo só
E morto
Estarei num lindo buquê
Mas tudo bem
Peixinhos coloridos também não podem voar
Cada um faz o que pode
Sou lírio
E isso não é lá grande coisa
Os porcos parecem tão felizes
Rolando na lama
Fico com uma vontadezinha
E quando faço algo bom de verdade
Algo altruísta
Gesto desprendido de mim
Parece até que não foi eu
Que eu não fui eu
Ainda bem que não sou pérolas
A embelezar pessoas esdrúxulas
Ou poetas que usam palavras esquisitas
Dom divino o "livre arbítrio"
E hoje
(Somente hoje)
Escolherei o que serei
Primeiro serei sol poente
Depois sol nascente
(Nessa ordem, porque nessa ordem há esperança)
Serei uma cachoeira não muito alta
De águas cristalinas
Serei som de vento soprando
Serei alguém paciente no trânsito
Serei paciente também 
No final de uma fila extensa
Gostarei de ser também
O riso dos bebês enquanto sonham
Presa em disparada que escapou
Do bote surdo da serpente
Dor que não se sente
Um pedaço de poema da Cecília Meireles
Beija-Flor
E poderei voar rapidamente
E comer coisas doces
Sem o temor dos diabéticos
E mais
Serei mulher que se entregou
E não foi abandonada
Pai que ama como mãe
Abacaxi com gosto de pera
Truque de mágica inexplicável
Filho que não nega o pai
Onda que abraça a rocha
Rocha que beija a onda
Cometa que não sai do lugar
Cambalhota de palhaço
Os primeiros segundos depois do amor
Não, lírio não
Hoje serei
Dente-de-leão
Serei bonito e feroz
E quando morrer
Quero o vento a me levar
Para encantar alguém