sábado, 14 de setembro de 2013

Ian Curtis - O poeta do desespero (Será?)

Ian Curtis

Há duas pessoas que representam bem uma questão dialética da poesia: Fernando Pessoa e Álvares de Azevedo. E que questão seria essa? Elementar meu caro Wattson: a relação entre vida e obra de um artista. Considero a dialética quase como um parâmetro universal de todas as coisas. Quando penso em Fernando Pessoa, penso alguém que construiu uma obra, heterônimos, a si mesmo, um tanto distante da vida que levava, do Fernando Pessoa, pessoa, humana. E quando penso em Álvares de Azevedo penso em alguém que fundiu a vida e a obra numa coisa só; no ultra romantismo, escrever não era suficiente, era preciso viver a obra, viver o escrito, mesmo que o que se escrevesse levasse à morte.
Ian Curtis é desses poetas que não separa a vida da obra. Funde na escrita o pensamento, o sentimento vivido de tal maneira que desmancha a tênue linha que separa a vida da ficção. Ian Curtis retratou o mundo ao seu redor, que ao seu ver parecia inóspito e cruel, sendo a morte nada mais do que o último degrau de uma descida natural. Por isso comparo Ian Curtis a Álvares de Azevedo, a Augusto dos Anjos, a Poe, Baudelaire, poetas que viveram com a morte como sendo algo não tão distante. Mais uma vez não vou colocar nenhuma biografia do autor em questão, pelo simples fato de que sua obra reflete a sua vida e se você quiser biografia vai na wikipédia. rsrrsrsrr.
Apesar de não colocar uma biografia vamos colocar alguns fatos relevantes da vida do poeta. Amava muito a música, trabalhou em uma loja de discos ainda jovem e sentía-se em casa num estúdio de gravação e testava novas sonoridades com criatividade. As músicas de sua banda "Joy Division" refletíam bem todo o caráter de obscuridade e inventividade das letras escritas por Curtis. Era epilético e isso o tornava, no palco, algo diferenciado e excêntrico que aumentava o carisma do cantor Ian Curtis apesar de uma personalidade meio reclusa. A qualidade e criatividade da banda pós-punk é indubitável, o single de "Love will tear us apart" é considerado por alguns como um dos melhores da história.
Falando desse single (o single de "Love will tear us apart") pra iniciar a nossa análise da obra desse gênio poético, é o primeiro que escolhemos que comprova a união intrínseca entre vida e obra. o single de "Love will tear us apart" fala sobre o divórcio sofrido entre Ian e sua esposa Deborah. Vamos à tradução e pequena análise:

Love Will Tear Us Apart

When routine bites hard
And ambitions are low
And resentment rides high
But emotions won't grow
And we're changing our ways
Taking different roads

Then love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

Why is the bedroom so cold?
You've turned away on your side
Is my timing that flawed?
Our respect runs so dry
Yet there's still this appeal
That we've kept through our lives

But love, love will tear us apart, again
Love, love will tear us apart, again

You cry out in your sleep
All my failings exposed
And there's taste in my mouth
As desperation takes hold
Just that something so good
Just can't function no more

But love, love wil tear us apart, again

O Amor Vai Nos Dilacerar

Quando a rotina magoa duramente
E as ambições são pequenas
E o ressentimento voa alto
Mas as emoções não crescerão
E vamos mudando nossos caminhos
Pegando estradas diferentes


Então, o amor, o amor vai nos dilacerar, novamente
O amor, o amor vai nos dilacerar, novamente


Por que o quarto está tão frio?
Você se virou para o seu lado
Será que meu tempo está acabado?
Nosso respeito se acaba rapidamente
Mas ainda há esta atração
Que mantivemos ao longo de nossas vidas


Mas o amor, o amor vai nos dilacerar, novamente
O amor, o amor vai nos dilacerar, novamente


Você chora no seu sono
Todos os meus fracassos expostos
E há um gosto em minha boca
Enquanto o desespero toma conta
Pois alguma coisa tão boa
Apenas não pode funcionar mais


Mas o amor, o amor vai nos dilacerar, novamente
Se todo mundo retratasse o divórcio dessa maneira!??!  Ah! os poetas! Quem mais, se não um gênio para retratar o divórcio assim? Todos os sentimentos mínimos envolvidos em um processo de separação de algo que se julgava ser para sempre. Nesse poema, ou letra, ou poema-letra vemos a tríade temática que perspassa toda a obra de ian: fracasso, solidão, desesperança com o futuro, mas falaremos disso depois.

A forma da escrita dos poemas de Ian é muita pragmática, apesar de haver letras ou poemas como Transmission ou Autosugestion, ou a maravilhosa New dawn fades que não há forma fixa quanto à estrutura e disposição dos versos, ele faz poemas com quartetos: From safety to where, candidate; faz poemas com estrofes de sete versos: insight, atmosphere; e os preferidos do poeta são as estrofes com oito versos, ficam parecendo grandes blocos poéticos bem ao gosto dos ingleses, que também não separam seus sonetos em estrofes e deixam tudo num bloco só: warsaw, waiting for the ice age, exercise one, passover... veja agora uma oitava bem construída pelo poeta, rimada, bem estruturada e com harmonia entre a quantidade de sílabas poéticas em cada verso e sua respectiva construção:
 WARSAW
I can still hear the footsteps
I can only see walls
I slid into your man-traps
With no hearing at all
I just see contradiction
Had to give up the fight
Just to live in the past tense
To make believe you were right


Eu ainda consigo ouvir passadas
Eu só consigo ver paredes
Eu deslizei para dentro das suas armadilhas para homens
Sem audição alguma
Eu só vejo contradição
Tive que desistir da luta
Só para viver no tenso passado
Para fingir acreditar que você estava certo


PARTE 1 DE 2

NA PRÓXIMA PARTE ABORDAREMOS VOCABULÁRIO E TEMÁTICA DESSE GRANDE POETA


ALGUNS LINKS
http://www.reporterdiario.com/blogs/ocorvo/?p=913
http://obviousmag.org/archives/2010/07/ian_curtis_-_legado_de_musica_e_poesia.html


Um comentário:

  1. São tantos os bons poetas que seria um pecado esquecer um deles. Tem um que vive esquecido, gosto também do Aphonsuns de Guimaraens. Cresci ouvindo meu pai recitar Vicente de Carvalho e outros.
    Palmas!!!

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