quarta-feira, 31 de julho de 2013

Você você você

Mote

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado,
Não falo de amor quase nada,
Nem fico sorrindo ao teu lado.




Voltas

Não sei qual o anjo que me maquiou
Se foi o do tempo ou o da morte
Que deixou minha cara assim
Cara de quem, teve pouca sorte

Fico calado e parecendo um sábio
Engulo o choro e aguento a dor
Faço poemas com cheiro de almíscar
Parecendo alguém que entendeu o amor

A vida eu mesmo que me fiz assim
Foi tudo que vi coisas lindas e insanas
Os homicídios que vejo no noticiário
Cenas de amor em novelas mexicanas

A cada dia que passa viro mais pedra
Não deixo nada me afetar como antes
Fiquei duro escondi os gestos de ternura
De pedras rijas no fogo nascerão diamantes

Nem essa maquiagem de zumbi angelical
Nem mesmo uma máscara de lucha libre
Esconderia esse olhar de bicho acuado
De alguém que sonhou um dia ser livre

Sempre estamos presos a alguma coisa
Agora estou preso em minhas lembranças
Mulheres que me amaram e que não amei
Quando eu era criança entre as crianças

Alguns sonhos realizei em outros frustrei
Tomei banho de estrelas fiz gol de bicicleta
Fiquei parado vendo o amor pegar o bonde
Às vezes não sabemos o que é a coisa certa

Frescor de terra molhada pela chuva
Cheiro de relva, campari, laranja partida
Dogs, um solo de David Gilmour 
Devia ter botão de pausa na vida 

Deitado em seu colo, calado, olho o horizonte
Estou bem, na verdade, estou muito bem
Ouvindo você falar, sem prestar atenção
Te amo em silêncio, te amo também







Mote retirado da música Gitá de Paulo Coelho e Raul Seixas


2 comentários:

  1. Me sensibilizou este teu poema. Primeiro que a forma como começa é uma música que admiro muito. Vejo melancolia impregnada nestes teus versos. Mas também vejo esperança. A parte em que o amor vai embora de bonde, sem palavras. Vivi isto. Quando fala de maquiagens angelicais para esconder a cara mórbida do zumbi parecia eu indo trabalhar nesses últimos dias.

    Juntou a música que eu estava ouvindo e os tempos sensíveis que tenho presenciado que quase me arrancam lágrimas.

    Ficou lindo

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    1. Li o seu texto que falava sobre arte e sobre o conceito de arte... que nós tentamos fazer arte e tal... Concordo com o crítico David Silvester: arte é o que nos toca, nos sensibiliza. Fico feliz em produzir algo com capacidade de tocar alguém, ainda mais uma pessoa como vc que também busca produzir algo relevante e sensível, obg!

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