quarta-feira, 24 de julho de 2013

Eu, eu mesmo e Irene

Meu nome é Irene
Sou eu
Eu mesmo

De aspecto rústico e covarde
Dócil, em verdade
Vítima por várias vezes
Da tirania humana
Humilhado publicamente
Usado como um exemplo
Fico meio neutra a tudo
O caminho do meio oriental
Me magoei, relevei e esqueci

Eu apenas deixei, sorri
Deixei que me humilhassem
Que me matassem, pisassem
Mas em casa eu chorei, sofri

Mas eu mesmo gritei, cuspi
Mandei pra puta... se ferrassem
Não tô nem aí, que se lascassem
Eu mesmo revidei, briguei, ofendi

Vivo em verdade um pseudônimo
Alma fugaz, alma perene
De mim ortônimo e heterônimo
Eu, eu mesmo e Irene

Minha inteligência é mediana
E isso faz bem pro governo
Assisto a passeatas na tv
Ansiosa pela novela
Triste e alegre como um filme
A vida é bela
Rumino casos de amor
E a fala de personagens menores
Gente-formiga trabalha-procura açúcar

Eu paguei calado o imposto
Aceitei a falta de contrapartida
Como um fera acuada e ferida
Com sorriso embaçado no rosto

Eu mesmo perdi a paciência
Com pedra e fogo fui pra rua
Sou navalha cortante na carne crua
Eu mesmo protesto com violência

Vivo em verdade um pseudônimo
Alma fugaz, alma perene
De mim ortônimo e heterônimo
Eu, eu mesmo e Irene

Escrevi crônicas de pasquim
Bobagens bobas do dia-a-dia
Poemas de amor infantis 
Notícias da moda budista
Horóscopo da semana passada
Receita de arroz com feijão 
Algo meio como o céu azul
Não digo bonito, nem perfeito
Algo bem conhecido e aceito

Eu escrevi o que todos queriam ler
O que diz a gramática e a linguística
Pra aumentar no meu blog a estatística
O que a crítica disse que eu tinha que ser

Eu mesmo sempre escrevi a estranheza
Poemas torpes como um soco na boca
Poemas-beijo de uma ninfa virgem louca
Te toco com algo podre ou de pura beleza


Vivo em verdade um pseudônimo
Alma fugaz, alma perene
De mim ortônimo e heterônimo
Eu, eu mesmo e Irene

O amor até que me veio cedo
Mas veio com a rotina do dia-a-dia
Não deixe, Roberto, tudo mudar lentamente
Ainda somos os mesmos
E não vivemos como nossos pais
O mundo foi quem mudou
Ficou mais agressivo com o amor
Hoje as cenas de romantismo
Não me fazem chorar como outrora

Eu aceitei o amor esfriar no prato
Me resignei com a periodicidade sexual
Aprendi a exaltar o bem perdoar o mal
Sem beijo, na última cena do último ato

Eu mesmo amei feito um louco loucamente
Só me serve o amor que no corpo é brasa
Paixão, tesão, frescor, teu corpo é casa
Eu mesmo me entrego amor totalmente

Vivo em verdade um pseudônimo
Alma fugaz, alma perene
De mim ortônimo e heterônimo
Eu, eu mesmo e Irene


2 comentários:

  1. A M E I!!!!!

    Sabe como usar as palavras para embelezar uma ideia!!!

    Chiquérrimo!


    Abraço!

    http://nkpassadopresente.blogspot.com.br/2013/08/culpa.html

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