quinta-feira, 20 de junho de 2013

A uma mendiga ruiva - poema comemorativo de aniversário de um ano

 
Há exatamente um ano eu me dava um presente de aniversário: este blog. E como eu não tenho acesso a estatísticas de outros blogs, considero o meu blog um sucesso; não pela quantidade de visualizações, mas pela quantidade de +1 que recebo que gira em torno de 35 % das visualizações e como um leitor de blog só dá +1 um se tiver logado e se gostar muito do que leu acho uma porcentangem muito boa e que revela, ao meu ver, a qualidade do que é publicado. Outro fator que acho super importante é que semanalmente sou adicionado a círculos das pessoas para que elas possam ser notificadas das novidades do blog, levando-se em conta que jamais pedi pra ninguém me adicionar essas pessoas que fizeram isso mostram, no meu entender, que gostaram do que leram e isso é super importante pra mim: agradeço a cada um de vcs. Falar em qualidade nas artes é algo muito delicado, porque tem a ver com gosto e isso é algo muito pessoal e subjetivo, talvez por isso, quando a gente começa a escrever busca por opiniões alheias e a gente acaba participando dos famosos "concursos de poesia" o prêmio, para a maioria, é irrelevante, mas  ficar entre os primeiros não tem preço. A verdade é que, ainda hoje prezo minha satisfação ao escrever e me importo com sensibilizar quem lê o que escrevi. E não sou diferente de muitos poetas e há muitos anos participei de um concurso do SESC de Teresina de poesia cujo o tema era "Teresina" - minha cidade natal. Premiações para os três primeiros lugares e menção honrosa para mais três, se não me engano. Faz tanto tempo que não me lembro bem, mas fiquei em segundo ou terceiro e quando eu vi meu nomizinho lá, putz, alegria indescritível. Lembro muito bem que não fui o primeiro colocado, mas o que achei mais importante foi que a minha poesia era a única que não falava de algo bonito ou agradável da cidade, então considerei que devia estar muito boa para ficar entre as primeiras colocadas e essa poesia por esse motivo também é muito especial pra mim e é ela que resolvi postar hoje. Essa poesia é muito importante pra mim porque me fez pensar muito na busca da felicidade; ela é uma homenagem a uma mendiga que vagava pelo centro da cidade, geralmente bêbada. Essa mendiga era cega e usava duas bengalas para se locomover, ao invés de uma, e tinha um andar lento e articulado por isso a achava tão parecida com um artrópode, já que algumas vezes eu estava meio bêbado quando a via. Porém, e sempre tem um porém, rsrsrsrr, a história dela é que me impressionou bastante, perguntei por que às vezes ela estava tão bem arrumada e um camelô ali do centro da cidade me contou que aquela senhora tinha filhos que a amavam e que a levavam pra casa e a banhavam e a alimentavam, a vestiam bem, cuidavam bem dela e quando se distraíam: ela fugia! E um dia quando eu tava vindo meio chapado de uma comemoração de título, campeão adulto de handebol do estado do PI, eu sentei na parada de ônibus e ela estava lá; mais ou menos meia noite, bêbada, catarrenta, suja, e quando eu menos esperava ela começou a cantar uma música bem conhecida e bonita. Cantava a plenos pulmões, feliz demais, e ria muito, e cantava, cantava com a alma e dizia imoralidades e eu achava aquilo super demais: a escolha por uma vida degradada. E eu me perguntava bastante porque ela escolhia viver como mendiga, cada um que tire uma conclusão deste causo. O título foi propositalmente tirado de uma poesia de Baudelaire, porque a mendiga de Teresina não é ruiva, rsrsrsr, mas escolhi Baudelaire porque ninguém é melhor que ele em pegar algo degradado e transformar em bela poesia, pra finalizar: essa poesia é pra vc mendiga, minha musa.





A uma mendiga ruiva

19:30 – Praça da bandeira (um dia qualquer)


Miserável ser humana
Cega, doente e catarrenta
E do justo, o sono, a insana
Ferve e atormenta

Mas não é culpa tua mendiga
És na verdade o sintoma
Da sociedade é a catinga
Nosso é o glaucoma

Os farrapos quem deu a ti
Para cobrires o corpo
Tiraram do índio tupi
Queimado e morto?

Aqueles bem mal te vestem
E mostram a carne crua
E o depósito de sêmen
Dos cães da rua

Vi que, ao andar, usas bastões
Completa assim visão e braços
Sonhos luz cores clarões
Cercam teus passos

No passado, que eras tu?
Será que nasceste verme?
Foi lírio, ou foi só urubu?
Maldito germe!

No futuro, o que te espera?
Não sei e sei o desejo teu
Errante, andar como fera
Ao asilo ateu

Bem conhecem mestre Aupick
O que é esmola e o que é dinheiro
Quem vive num Jóquei chique
Ou num chiqueiro

Chiqueiro, é um jogo de signos
Mendiga irmã dos artrópodes
Viverias melhor com dignos
Porcos quadrúpedes

Flagrei-te a esquecer a vida
A lágrima a íris inunda
Estás na calçada, caída
Bêbada e imunda

De repente, um pouco tonta
Gira a cabeça a cantar
A canção vem da alma, pronta
Para sonhar

E eu sei que o som vem do fundo
Mas bem de dentro do peito
Porque é a maior parte do mundo
De um ser perfeito

Quer nos ouvir, nos tocar
Toque, nos sentir apenas
Mas paciente está a esperar
Almas serenas

A ti e a mim o mundo isola
Ao igual não há quem perdoe
Eu, por mim, te dou uma esmola
- Deus te abençoe!!!




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